Sentados na esplanada, enquanto tiravas um dos cubos de gelo da coca-cola com limão que tinhas pedido e o tricavas ruidosamente (esse hábito tão arrepiante e tão teu), não consegui deixar de pensar na força que o acaso tem. Se me tivessem dito há umas horas que ía encontrar uma das grandes paixões da minha vida em pleno Chiado a meio da tarde, tinha-me rido com a ignorância de quem só acredita nas coisas mais terrenas.
Eis-me aqui, à tua frente, nesta busca tão frenética de sinais familiares de quem sabe que tem o tempo contra si, que não me deixa ouvir tudo aquilo que dizes nem responder às perguntas que, com a curiosidade toldada pelo medo das respostas, me vais fazendo.
Começaste pelo mais fácil, elogiando o meu fato de saia e casaco enquanto olhas disfarçadamente para as minhas pernas e aproveitas para recordar o meu fascínio por sapatos de saltos vertiginosos. E eu constato que não mudaste, que sempre foste assim. São os elogios, os olhares ansiosos disfarçados com recordações. Sabes que as mulheres não resistem a elogios misturados com memórias. Sabes que as mulheres gostam que lhes gabem o gosto.
Seguiste para o profissional, aproveitando para me perguntares se continuo a viver no mesmo sítio, porque bem sabes que num T0 não cabe mais ninguém. Perguntas-me pelo meu gato que não simpatizava contigo. Mais uma vez apelas às recordações para me convenceres de que fui importante para ti. Falas, aliás, como se nenhum tempo nos tivesse separado e ainda soubesses onde guardo a lingerie e que preciso sempre de um banho bem quente antes de dormir.
E eu ouço-te e vou-te respondendo. E vou pensando para mim que nós continuamos sempre os mesmos. A nossa vida é que não.

