sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

"Queria mesmo muito ser tua amiga. Amiga de verdade, amiga a sério. Como aquelas que eu já tive e que se perderam no tempo porque o espaço mudou. Gostava que fosses a minha confidente e eu a tua, mesmo no silêncio. É tão confortável o silêncio quando sinónimo de cumplicidade... Eu contava-te a minha vida e tu contavas-me a tua. Ampararias o meu choro quando as coisas não vão tão bem e irias comprrender a confusão que vai na minha cabeça tantas vezes. Dir-me-ías as verdades, duras e cruas, porque a ti tudo permitiria. Quando me achasses mais gorda, fazias-me ir ao ginásio e aconselhavas-me os mais recentes truques de maquilhagem quando os dias não são bons. Sentir-te-ías na minha casa como na tua e passaríamos serões a ver DVDs a comer queijo com vinho tinto, seguido de muitos cigarros e de um jogo de crapôt. Às vezes, saíriamos por aí. Iríamos comprar as futilidades que nos fariam felizes, almoçaríamos na esplanada ou iríamos dançar uma noite inteira seguida. Jamais nos queixaríamos a alguém de fora se, por algum motivo, nos desentendessemos. Respeitarias as minhas diferenças e eu as tuas. Seriamos amigas a sério. E eu ía gostar."

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009


Fazemos planos, olhamos em frente, projectamos tudo num futuro incerto. Muitas vezes queremos mudar só porque sim e nem avaliamos bem as consequências. Outras vezes, mesmo com grande planeamento, o acaso faz das suas, troca-nos as voltas e acontece aquilo que nunca supusemos viesse a acontecer. É assim a vida. Por mais que queiramos controlá-la, de quando em vez controla-nos ela, põe-nos à prova, testa a nossa capacidade de adaptação, de reacção e até de invenção.
Por mais preparados que nos sintamos para uma mudança, por mais seguros que nos sintamos por já termos pintado todos os cenários prováveis e improváveis e que já tenhamos respostas para eles, no dia D, há sempre aquele receio do incerto. E há também aquela nostalgia de tudo o que foi. E há ainda, às vezes, a vontade de deixar tudo como está porque se sabe com o que se conta.
O Tribunal da Boa Hora vai fechar as portas e mudar-se para a Expo. Não faz sentido, há muito, trabalhar num edifício que já foi bonito, em plena Baixa da Cidade, sem estruturas ou infrestruturas. Vai dar lugar a um hotel que, de certeza, lhe fará um milagre de rejuvenescimento e que se fará pagar por isso. É o sinal da modernidade, a certeza de que será melhor. Fica a nostalgia de um edifício cheio de histórias descaracterizado dentro de pouco.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009


Depois de um fim-de-semana cheio de filmes, tenho de assumir que, cada vez, gosto mais de filmes de gente. De gente que ri, chora, grita, ama e odeia, que se perde na vida e que se encontra. De gente como eu (como nós?).

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009



Detesto falar com alguém que põe o telefone em alta-voz. Não me venham cá dizer que é prático, que deixa as mãos livres para fazer outras coisas e que é bem melhor do que os torcicolos causados pelo apoio do telemóvel ou do auscultador do ombro segurado com o pescoço que isso, a mim, não me diz nada. É horrível falar com alguém que põe o telemóvel em alta voz e pronto.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Em relação aos fundamentos das declarações "polémicas" de Dom José Policarpo da passada semana, limito-me a dizer que o Senhor está cobertinho de razão e que basta ler um ou dois daqueles livros que retraram o que, em nome de uma religião, os homens ousam fazer às mulheres para achar que ele ainda foi muito suave.
Isto não há cá religiões melhores nem piores. O que há é abusos cometidos em nome de um Deus e que resultam apenas de interpretações humanas de textos que dão azo aos mais revoltantes actos de falta de humanismo. E se na católica já não se praticam tais actos de forma tão ousada quanto há uns míseros séculos, essa que segue o Corão está bastante mais atrasada.
Dom José chamou a atenção para o assunto e fez bem. Muitíssimo bem. Não se trata de dizer que a minha religião é melhor do que a tua, nem de dizer que eles é que são os maus. Do que se tratou foi, no meu ponto de vista, de chamar a atenção para o facto de se ter bem a noção de que uma união com alguém de tal religião poderia trazer resultados bem negativos.
Não disse nada que não se soubesse já. O que não fez - e daí a polémica - foi dizer o que ninguém tem coragem de dizer. Porque faz parte do bom entendimento o não se falar em assuntos melindrosos, o não ferir susceptibilidades e o fazer de conta que não existe, que não se vê ou que não se sabe.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

"O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis."

Fernando Pessoa



Segundo li, vai voltar à carga a discussão do casamento entre homosexuais.
Eu sou completamente a favor e não entendo, francamente, as mentes retrógragas e pseudo-púdicas que se afirmam contra. Aliás, a não ser pelo preconceito religioso, não li ainda uma opinião fundamentada do grande mal que vem ao mundo se pessoas do mesmo sexo tiverem o direito de poder contrair matrimónio entre si.
Do pouco que sei dos cânones religiosos, a finalidade última do casamento é a procriação e o casamento é para todo o sempre (aquela história que o que Deus uniu o homem não pode separar e tal). O que equivale a dizer que só se podem casar pessoas de sexo diferente porque são as únicas capazes de ter filhos, que isso sim interessa mais do que o amor. E que, corram as coisas bem ou mal, estejam as pessoas felizes ou não (filhos incluídos), vão ter de se gramar um ao outro até oa fim dos seus dias, qual castigo por se terem junto em alguma fase das suas vidas.
Dando de barato que ainda há gente que se identifica com tais cânones e que, por isso mesmo, e apenas por isso, decidiu casar pela Igreja, há que convir que a maioria da população (felizmente, quanto a mim), não se revê em nada disto. A maioria das pessoas que casa pelo Igreja fá-lo ou para agradar aos progenitores ou porque a espectacularidade do acto é bem maior. E por nenhuma outra razão. E nem esses casam com a finalidade única de ter filhos e com a certeza de estar a criar um vínculo que seja mais duradouro do que o amor que os une.
A vida mudou, as realidades mudaram e os cânones em questão não se compadecem com a nossa realidade. Ponto final. Ter filhos, mesmo que seja um objectivo (que o é na maior parte dos casos) é mais complicado hoje do que há anos atrás e o amor para sempre até pode existir, mas é cada vez mais raro. Convenhamos.
(Sobre isto, os casamentos entre heterosexuais, se me der praí, poderei falar noutro post.)
As pessoas casam-se porque, em determinada altura, querem juntar a sua vida à da pessoa que amam, convencidas que o sempre equivale a enquanto houver amor entre eles, porque querem dar uma maior seriedade ao relacionamento ou mostrar ao mundo que se amam e que apostam naquela relação de um modo especial. Podem querer ou não ter filhos, mas não é isso que os move.
Sendo esta a realidade das coisas, não consigo entender por que motivo há praí gente a achar que pode impedir que duas pessoas do mesmo sexo optem por casar. Como se amar alguém do mesmo sexo fosse menos digno do que amar alguém do sexo oposto e, por esse motivo, não se pudesse conferir seriedade oficializando um relacionamento. Porque, poesia à parte, é mesmo disso que se trata: de oficializar as coisas. A homosexualidade é mais do que normal nos dias que correm. Já se deixou essa discussão há muito tempo, felizmente. E o casamento, mais do que banal nos dias de hoje. Portanto, qual é o grande problema de duas pessoas do mesmo sexo irem à Conservatória do Registo Civil, e assinarem um contrato de comunhão de vida?
O amor entre eles não é menor. É tão digno de respeito e de celebração como o dos outros.
(Ah, e não. Não é um reflexo da minha orientação política.)