sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Fases

Quando nascemos, o círculo das pessoas que nos rodeia é formado pelos pais e familiares mais próximos. O conceito de amizade, de empatia por estranhos e da construção de relações com eles vai surgindo à medida que vamos construindo a nossa vida, deixando esta de nos cair do céu ou de nos ser imposta. Parte do nosso livre arbítrio, sim, mas também das circunstâncias da vida. Da nossa e da dos outros.
Não é à toa que escolhemos A ou B para serem nossos amigos (e eles nos escolhem a nós, bem entendido), não é à toa que nos sentimos mais próximos de A ou B em certo momento. Tem tudo, mas tudo, a ver com a fase da vida em que nos encontramos e eles se encontram. É essa fase que faz as cumplicidades serem mais fortes. E as amizades também.
Se o meu horário de trabalho é de noite, é natural que me aproxime mais de quem está acordado às mesmas horas que eu. Se estou a preparar o meu casamento, interessam-me mais as conversas de quem já preparou o seu, do que as conversas sobre o que se passa nos bares da moda. Se estou a divorciar-me, procuro quem já se divorciou e quem se está a divorciar e não quem tem um casamento 5 estrelas (se é que há casamentos 5 estrelas). Se tenho pouco dinheiro, procuro quem possa gastar tão pouco quanto eu e não quem acha que uns sapatos de € 500 são perfeitamente acessíveis. E por aí fora.
Se isto vale para o início da amizade, vale também para o desenrolar dela. As aproximações e empatias iniciais estão lá. Ficaram lá. Provocaram vivências inesquecíveis que uniram as pessoas. Podem é manter-se ou nem tanto. Dependendo das circunstâncias da vida, a empatia que se sente com o amigo A ou com o amigo B vão sendo diferentes. E os temas de conversa também. Mesmo que não se diga, pensa-se: "para que é que te vou falar disto se tu não entendes?". Mais vale falar de outra coisa. E, convenhamos: entre amigos mesmo, há sempre qualquer coisa.

Quem ou quando?



No fim-de-semana passado, entre outros, vi este "Definitely, Maybe" de Adam Brooks.
Questionado pela fiha de 10 anos, o pai, em processo de divórcio, vê-se obrigado a contar à filha a história de amor da sua vida. Ainda que o objectivo fosse esta conhecer a história de amor dos pais, o que se vem a descobrir é que o pai tem, porque o deixou fugir em dada altura, o amor da sua vida por reencontrar. Escusado será dizer que, como é costume com este realizador, tudo acaba bem.
Um filme light, uma comédia romântica... simpática.
Há uma frase dita pela April a certa altura do filme (num dos rasgos de aprofundar temas, mas que não passa disso) que me ficou na cabeça. Diz mais ou menos que não interessa tanto o quem, mas sim o quando, referindo-se, naturalemente, às pessoas por quem nos apaixonamos. Traduzindo livremente, o princípe encantado pode cruzar-se no teu caminho aos 18 e não te aperceberes que é o teu princípe encantado e o sapo pode cruzar-se contigo aos 50 e perceberes que é o princípe.
Eu que, assumidamente, acredito no destino e na alma gémea, não posso concordar.
É certo que (com a margem de erro que cabe às generalizações) a maioria das pessoas, na fase da adolescência, da descoberta do eu e do outro, não está minimamente preocupada em saber se quem está ali ao lado é aquele com quem se vai partilhar a vida toda, o pai certo para os filhos ou o marido que vai ter o jantar pronto quando chega a casa. Isso são antevisões que nem sequer existem, "preocupações" que não fazem mesmo parte. Há mas é uma vida para viver, gente para conhecer e o tempo não é para perder. Por isso, pode até deixar-se passar alguém verdadeiramente especial. Mas não a alma gémea.
A alma gémea, o princípe ou a princesa encantado/a, se forem mesmo os verdadeiros, irão reaparecer mais tarde, com toda a certeza.
Se o mais tarde é quando realmente se sente a necessidade de acalmar, de partilhar, de construir um futuro a dois e depois a 3 ou a 4 e por aí fora, esse mais tarde está ligado a alguém de jeito. Se já se esperou tanto tempo e não surgiu o tal, a exigência aumenta. Mais do que saber o que se quer, sabe-se quem se quer. E isso não é algo de que se abra mão. Não se aceita um substituto só porque sim, porque se está na idade. Se a idade tem alguma coisa a ver com isto, tem forçosamente de ser no sentido de uma maior exigência, e, ao contrário do que se diz no filme, tem tudo a ver com o quem.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Cuspir no prato em que se comeu

Está certo que a paixão tolda a inteligência e a reduz quase a zero e que há coisas inexplicáveis nem que se passem milhões de anos. É vulgar uma pessoa apaixonar-se, viver aquela paixão e achar que "é desta", não conseguir ver o que os outros vêem e andar enganada um tempo. É vulgar acordar depois e achar impossível ter andado tanto tempo adormecida, cega para as evidências e ter até vergonha de se ter apaixonado assim. É mais ou menos vulgar mostrar tal arrepndimento à amiga mais próxima e fazer tudo para esquecer o assunto e apagar os vestígios da possibilidade de alguém vir a descobrir tal facto. É.
Infelizmente, mais vulgar do que isto é o famoso "cuspir no prato em que se comeu" ou "sujar a água em que se lavou" (esta é mais recente para mim). Vulgar e triste como tudo. Ao contrário do que parece, não anula o outro e enaltece quem o diz. Não faz quem está a ouvir pensar que o outro é essa merda que está a ser descrita. O que provoca (pelo menos o que me provoca) é aquela sensação de estar perante alguém mal resolvido, que não engoliu muito bem o fim e que quase de certezinha que não queria o fim. Soa-me a gente mal amada, mal fodida e frustrada.
Por pior que tenham corrido as coisas, já a minha avó dizia que "a culpa não morre solteira" e que "quem desdenha quer comprar". Por isso, quem passou à frente, de facto, quem pôs e aceitou o ponto final, quer mas é um parágrafo novo, uma página nova se possível e nem se lembra sequer dos defeitos de quem já lá vai. Muito menos gasta energia a deitar abaixo. Simplesmente porque já não tem sequer essa importância.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

"Já perdi a conta às vezes que fiz refresh na página do teu blog, na esperança de que, por magia, lá estivesses a contar-me mais de ti. Que ideia a minha achar que tu escreves para mim e que mais ninguém te lê, agora que os blogs são a moda da internet! Logo tu que nem sequer imaginas que eu existo e que te leio e que te imagino num corpo e numa cara que são só meus. Logo tu que estás tão nas tintas para quem te lê que fazes questão de não aderir ao sitemeter. Escreves porque te apetece apenas. Não permites comentários nem tens um e-mail para onde eu possa escrever quando o desespero já é mais do que muito. É que a falta de posts pode sempre indiciar que te fartaste e que foste à tua vida. E isso, magoa-me. Magoa-me saber que tu tens uma vida para além desta e uma cara e um corpo que não são os que eu imagino. Que te alimentas e que trabalhas e que acordas com alguém que não eu. E que eu não posso fazer mais do que continuar a ler-te. E a imaginar-te. E a ter-te só para mim assim."

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Se há coisa que temo na vida é de me tornar uma mulher amarga. Mais do que perder a lucidez e viver num mundo só meu que me faça andar aos encontrões no meio da rua, tenho pavor mesmo é de amargar.
(In)felizmente, tenho-me cruzado com mulheres deste tipo e fujo delas como o diabo da cruz. Não sou paciente nem tolerante nem compreensiva, lamento. Trazem más energias e acho-as um caso completamente perdido. Abrem a boca para sair veneno, sugam a energia alheia, só descansam quando vencem o interlocutor pelo cansaço que o leva a dizer amén a todas as baboseiras que lhes saem pela boca fora, como se o mundo fosse o vilão que lhes fez mal, a elas, pobres coitadas, que só merecem o melhor e sempre fizeram por isso. Incapazes de reconhecer os próprios erros, de analisar, ainda que semi-objectivamente, as causas e as consequências, destilam veneno por todos os poros, exigem compaixão e invejam o que de bom acontece aos outros, mesmo que se armem na mais altruísta das almas. Não estão bem consigo mesmas, nem com ninguém. Mas negam ajuda. Só querem que as ouçam e que lhes digam que sim. Nada de contrariar nem de sequer ousar dizer umas verdades, que a realidade delas é bem penosa e já chega de contrariedades. São egocêntricas e egoísticas e cegas.
Diferentes, são as mulheres amarguradas. Tiveram também as suas desilusões de vida, porque esta, afinal, não saiu nem perto do que imaginaram. Mas aceitam. Em sofrimento, mas aceitam. Aceitam sem querer contaminar o resto do mundo com os seus males e desejando aos outros que vivam a vida deles da melhor maneira e que não cometam os erros que elas cometeram. Lutam por um mundo melhor, para os outros, que ao seu já não há grande volta a dar.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

"A clareza e a sinceridade costumam ser brutais ou, no mínimo, desconcertantes."

Miguel Esteves Cardoso
Como sempre, nesta altura do ano, sinto-me mais frágil. Quando me comecei a aperceber que todos os anos por esta altura era a mesma coisa, optei por olhar à volta com mais atenção e ver se era só eu ou se mais alguém parecia sentir a mesma coisa. Foi sem surpresa que reparei que andamos todos um bocadinho na mesma.
Como se o final de um ciclo já não bastasse para nos pôr neste estado, as reuniões de família vieram juntar-se-lhes para o quadro estar completo. Em Dezembro, de facto, junta-se tudo.
Primeiro, vem o Natal. Com ele, vêm as reuniões de família, os jantares e os almoços em que se faz de conta. Faz-se de conta que apetece estar, que é mais uma celebração da união da família, que não houve desgostos com os familiares o ano inteiro. Ou se engolem as divergências em nome do Natal, ou, pura e simplesmente, muda-se a rota e está-se com quem não se é tão próximo e, por isso, com quem não se teve nenhum tipo de aborrecimento, ou vai-se para um destino em que seja verão e o Natal renegado.
Depois vem a passagem do ano. Ele são as promessas feitas à pressa de melhorar isto e aquilo, o beber para esquecer, o ter de se divertir forçosamente, o balanço do ano que passou, dos anos que passaram, de uma vida. São os desejos, o pensar nos outros e em como tudo poderia ter sido diferente.
Entre o faz de conta e o fazer contas, os sentimentos e as emoções andam num turbilhão. Venham os dias da vida normal.