Hoje parei para olhar para ti. Nem te apercebeste que te olhava mais demoradamente do que o costume enquanto o semáforo não mudava para a côr de nos deixar passar. Foi a escuridão dos óculos que me deixou aperceber-me que o tempo de te fez diferente e que eu não me dei conta. Não te olhava há tanto tempo por te ver todos os dias que nem me tinha dado conta das mudanças. Se não me ponho a pau, qualquer dia, não te conheço. As tuas mãos mudaram: as tuas unhas já não são as tuas, mas essas que podem ser de qualquer uma, mas o anel que te dei continua lá, no dedo de sempre, e não te atrapalha na maquilhagem que agora fazes dentro do carro de frente para o espelho minúsculo que está por detrás da pala. Trazes todo um arsenal dentro da carteira que vais pondo pelo caminho para cobrir os traços do tempo que não tem sido generoso contigo. Abusas da base e do rímel. Os teus saltos aumentaram, os teus decotes também. O teu cabelo clareou. Quntas diferenças encontro em ti! E o resto? Estará diferente? Não sei o que mudou em nós. Não tenho estado praí virado. Entrámos numa rotina tal que nem me lembro bem de ti. Sei que partilhamos a comida e a cama, a viagem de ida para o trabalho, as contas e ... pouco mais. Já me esqueci do que gostas, do que te faz rir. Há quanto tempo não te ouço uma gargalhada! Há quanto tempo não te vejo uma lágrima! O semáforo mudou de côr. Fixei os olhos na estrada e parei à porta do teu trabalho. Saíste do carro e atiraste a porta com um bom dia. Apenas. Sem beijo.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Jantares de Natal
Isto das tradições assemelha-se mais às imposições que outra coisa. Ano após ano, grande parte da população (mundial, eu diria) vê-se obrigada a participar em rituais colectivos para os quais não tem a mínima paciência; mas também não tem a coragem de assumir um "não".
Com a aproximação do Natal, tudo isto tem tendência a acentuar-se.
Os fretes familiares a que a maioria das pessoas se vê obrigada, como sejam deslocações para trás do sol posto quando não apetece nadinha para um jantar e um almoço com família que diz menos que os amigos e uma noite numa cama estranha não são nada quando comparados com os jantares de Natal profissionais.
Neste mês, abundam as confraternizações que não acontecem durante o ano uma única vez. Ele é e-mails cheios de enfeites de Natal acompanhados por ementas e sugestões de restaurantes, ele é telefonemas entre colegas para saber quem vai e assim poder situar a sua vontade, ele é telefonemas a pedir confirmações, ele é tentar saber se a chefia vai. Ele é, basicamente, o diz-me quem vai, dir-te-ei se vou, que a vontade não é nenhuma mas não quero ficar mal na fotografia.
Nessa noite, vai-se casual-formal, cada um senta-se perto de com quem mantém alguma afinidade, come o mais rápido possível, faz conversa de circunstância q.b., evita-se beber a mais, se possível passa-se o tempo agarrado ao telemóvel, presta-se atenção a quem inventa a primeira desculpa para ter de ir embora e segue-se-lhe os passos. No caminho para casa, jura-se que no ano seguinte não se vai, doa a quem doer. No dia útil seguinte, diz-se mal de tudo e de todos, mas sorri-se nos corredores e diz-se a quem interessa que estava tudo muito bom.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Re-start
Cria-se um blog e escreve-se. Não importa sobre o quê nem sobre quem. Escreve-se apenas porque apetece. Lêem-se outros, comenta-se. Comentam-nos. Torna-se um hábito visitar e ser visitado. Mandam-se e-mails e sai-se do pseudo-anonimato da blogoesfera para a familiaridade de números de telefone, almoços e jantares. Criam-se amizades, empatias, cumplicidades, correntes de afectos que se adicionam aos favoritos e aos contactos do messenger. Criam-se antipatias, mal-entendidos e desavenças. Assemelha-se tudo à realidade da vida. Deixa de se escrever o que apetece com medo de ferir susceptibilidades. E escreve-se outras tantas para ferir. O que, ao início, parecia uma libertação e um escape, acaba por tornar-se mais uma amarra. Um dia, acaba. Deixa-se para trás o pseudonimo e o blog. Começa-se outro noutro lado qualquer. E escreve-se autenticamente. Até ser possível. Depois, começa-se tudo outra vez.
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